A gente não precisa mais da assinatura de um homem para poder viajar, nós precisamos de um mundo mais seguro para viajar sozinhas, com nossas filhas, irmãs, amigas ou namoradas. 

Esse ano vai  fazer 10 anos que andei de avião pela primeira vez. Eu tinha 20 anos e estava sozinha com uma mala cheia de sonhos em uma viagem internacional de 14 horas.

O voo foi em uma aeronave de 84 metros de comprimento e 640 toneladas, óbvio que eu estava nervosa; mas o que piorava a situação, eram as escalas nos países de línguas mais aleatórias impossíveis. Eu só falava brasileiro e meu celular antigo não era android. Aplicativos de tradução? Nem pensar. Google maps então…

Só depois de passar mal, botar tudo pra fora, precisar da ajuda da comissária e, ainda, tomar  2 dramins, foi que consegui ficar mais calma. O importante é que deu tudo certo e pude viver uma grande aventura. Lembro que na época muita gente falava que eu era louca de juntar uns trocados pra ir atrás de um amor. A propósito, tem algo mais sapatônico do que atravessar um oceano por alguém? 

Se tem uma coisa que toda sapatão tem é coragem, viu? Seja para namorar à distância, atravessando oceanos, continentes e fronteiras por alguém. A gente já precisa passar por tantos atravessamentos nessa sociedade por sermos mulheres lésbicas, periféricas, negras, indígenas; que ter coragem para viver nossos afetos chega a ser um ato político. 

Como uma autêntica sagitariana sou apaixonada por viagens e nesses últimos 10 anos viajei sozinha, com minhas irmãs, amigas, cunhadas e namoradas. Pra mim, explorar o Brasil e o mundo ao lado de outras mulheres, têm sido transformador e apaixonate. 

Mesmo com as moedas contadas conheci 9 países, aprendi outros idiomas e não tenho mais medo de andar de avião. Agora embarco tranquilamente e a única ajuda que preciso da comissária, é para roubar a garrafa de vinho só pra mim.

Courage sapatão, quando tudo isso passar, vamos viajar!

Yara Martins

Mulher brasiliense-periférica-lésbica-feminista interseccional e trompetista.